A série “Dele & Dela” (His and Hers), disponível na Netflix e estrelada por John Bernthal e Tessa Thompson, surge como mais uma aposta do streaming no filão dos dramas criminais psicológicos. Adaptada do livro homônimo de Alice Feeney, a produção opta por um caminho mais direto e acessível, entregando uma narrativa ágil, envolvente e fácil de consumir, ainda que sacrifique parte da densidade psicológica que tornou a obra literária tão perturbadora.
Com apenas seis episódios curtos, a série assume desde o início um ritmo acelerado. Essa escolha é vista de forma positiva dentro da proposta televisiva. Não há gordura narrativa, subtramas desnecessárias ou episódios de transição. Cada capítulo avança a história de forma objetiva, mantendo o espectador preso aos mistérios centrais. Para o formato de streaming, essa concisão funciona bem e evita a sensação de desgaste comum em thrillers mais longos.
As diferenças em relação ao livro, no entanto, são significativas. A principal delas está na caracterização da protagonista Ana Andrews. Na obra original, Ana enfrenta um alcoolismo severo, elemento essencial para tornar sua perspectiva profundamente não confiável. Essa fragilidade psicológica é um dos pilares do livro, pois coloca o leitor em constante dúvida sobre o que é verdade e o que é distorção. Na série, esse traço foi completamente removido. O resultado é uma personagem mais funcional, mais “limpa” narrativamente, mas também menos ambígua e menos inquietante.

Outra mudança relevante diz respeito à estrutura familiar de Ana. No livro, o pai da personagem está presente e é assassinado pela própria mãe, fato que adiciona camadas de trauma, culpa e perversidade à história. Na adaptação da Netflix, esse arco foi eliminado. A ausência dessa trama simplifica drasticamente a dinâmica familiar e reduz o impacto psicológico da relação entre mãe e filha, tornando os conflitos mais fáceis de digerir, porém menos provocativos.
A mudança de ambientação também altera o tom da narrativa. Enquanto o livro se passa na Inglaterra, com sua atmosfera mais fria, contida e opressiva, a série transporta a história para o interior da Geórgia, nos Estados Unidos. Essa escolha aproxima a produção de um thriller policial mais convencional, com paisagens abertas e uma estética mais familiar ao público americano, mas que perde parte da claustrofobia emocional presente no material original.
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Dentro desse contexto, “Dele & Dela” funciona muito bem como entretenimento. A série pode ser definida como um “fast food de dramas criminais”. É rápida, saborosa, eficiente e cumpre exatamente o que promete. Prende a atenção, entrega reviravoltas e mantém um nível constante de tensão. Ao mesmo tempo, não se aprofunda tanto nos dilemas psicológicos, nas contradições morais ou na complexidade dos personagens quanto o livro de Alice Feeney.

O final da série segue essa mesma lógica. Ele levanta questões morais importantes, especialmente sobre as escolhas da mãe de Ana e os limites entre proteção, culpa e violência. No entanto, a produção opta por não explorar essas questões em profundidade. As respostas não são totalmente entregues, e a reflexão fica a cargo do espectador. É um encerramento funcional, coerente com o tom da adaptação, mas menos perturbador do que poderia ser.
No balanço geral, “Dele & Dela” é uma boa série, bem produzida, bem atuada e eficiente dentro de sua proposta. Não substitui a experiência do livro, nem tenta competir com ele em termos de complexidade psicológica. Em vez disso, oferece uma versão mais acessível, direta e palatável da história. Para quem busca um thriller envolvente e rápido, funciona muito bem. Para quem procura profundidade extrema e narradores moralmente instáveis, o livro continua sendo a experiência definitiva.
