O encerramento de Stranger Things deixou uma sensação difícil de ignorar. Para muitos espectadores, o final não cumpriu promessas narrativas construídas com cuidado ao longo de várias temporadas. A série sempre se destacou por plantar pistas, regras e símbolos. No entanto, no desfecho, boa parte desses elementos parece ter sido ignorada ou resolvida de forma apressada. O problema não foi a ambição do final, mas a execução.
Desde o início, a história estabeleceu regras claras sobre o Mundo Invertido. Havia uma lógica própria, mesmo sendo um universo sobrenatural. No final, essas regras passam a ser quebradas sem explicação. A conexão de Will com Vecna, um dos mistérios centrais da série, nunca é devidamente esclarecida. Em alguns momentos, ele sente a presença do vilão. Em outros, essa ligação simplesmente desaparece. A série abandona a própria mitologia quando ela mais precisava ser respeitada.
Outro ponto que gera frustração é a inconsistência nos impactos físicos e psicológicos. Personagens sofrem traumas profundos em um episódio e parecem totalmente recuperados no seguinte. Ferimentos, sequelas e consequências emocionais surgem apenas quando o roteiro precisa. Quando não são mais úteis, somem. Isso enfraquece a sensação de perigo real e reduz o peso das decisões tomadas pelos personagens.

O desenvolvimento de personagens também sofre no final. Figuras importantes como Jonathan, Nancy e até Max ficam sem arcos satisfatórios. Personagens que tiveram grande relevância em temporadas anteriores passam a existir apenas como apoio narrativo. Há a sensação de que a série não soube o que fazer com seu próprio elenco. Até nomes de peso, como Linda Hamilton, acabam tendo participações irrelevantes para a trama principal.
As promessas não cumpridas se acumulam. Um dos exemplos mais citados é o desenho do dragão de três cabeças feito por Will em temporadas anteriores. A imagem parecia carregar um simbolismo claro e uma preparação para algo maior. No entanto, nunca há payoff. Datas, falas e pistas espalhadas ao longo da série não levam a lugar algum. O que parecia planejamento de longo prazo se revela apenas como sugestão vazia.
O uso excessivo de conveniências de roteiro também chama atenção. Explosões gigantes, batalhas caóticas e confrontos finais acontecem sem consequências reais. Personagens sobrevivem a situações extremas sem explicação plausível. Isso diminui a tensão e cria a sensação de que nada realmente importa, porque o roteiro sempre encontrará uma saída rápida.
Os arcos emocionais, especialmente de Mike, Eleven e Will, são resolvidos de forma acelerada. Conflitos internos que levaram anos para serem construídos são encerrados em poucas cenas. Não há tempo para assimilação. Não há silêncio. Não há impacto. O final parece mais preocupado em concluir do que em concluir bem.
No conjunto, o sentimento deixado é de abandono narrativo. Muitas construções foram deixadas pelo caminho. Outras foram resolvidas apenas para encerrar a história. Stranger Things continua sendo uma série marcante, com personagens icônicos e momentos memoráveis. Mas seu final reforça uma crítica recorrente na televisão moderna. Nem toda grande jornada termina à altura do que prometeu.